Surra de Shuffle

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Sobre aborto (mas sem as imagens chocantes nem os apelos sem fundamento)

Amigos, avisei que esse espaço era shuffle, né? Vcs não leram mas eu avisei.

Na falta de espaço melhor pra postar o texto que segue e já que não tenho outro lugar pra falar sobre esses assuntos mais pesados vai ser aqui mesmo.

Ei-lo:

Impossível falar de aborto em apenas um tweet porque o meu pensamento não é um simples SIM ou NÃO. Acredito que o de muitos também não seja, mas, mesmo eu que sou uma grande fã da concisão, acho irresponsável juntar a minha opinião no mesmo balaio dos que pensam que é uma coisa muito simples.

E não é simples mesmo! Falar de aborto envolve vida, saúde e dignidade. E é na dignidade que eu baseio todo o meu entendimento.

Para que o aborto deixe de ser considerado crime no Brasil várias coisas devem ser consideradas. Coisas que vão além da formação do tubo neural, tempo de gravidez e religiões.

A propósito, a respeito do que pensam as religiões e igrejas, não vou olhar a coisa pelo ponto de vista religioso porque cada religião tem sua doutrina e eu não sou contra nenhum Deus nem contra nenhuma religião, mas acho que isso desvia o foco. Vivemos num país laico sim. As instituições influenciam as decisões do Estado sim, porque o Estado não é uma parada acima das pessoas, mas um ente formado por essas pessoas, cada uma com sua cultura, religião, influências e pressões que determinam suas decisões o tempo todo.

ATUALIZAÇÃO: depois que postei isso aqui fui ler o texto do Flavio Morgenstern no seu Caffeine Cult e é brilhante. Ele dá uma “bela arrumada” nas infelicidades que o povo fica por aí cacarejando e coloca os argumentos contra e a favor nos seus devidos lugares. Façam um favor a vocês mesmos e leiam também.

Eu ia falar sobre a minha opinião, né? Então:

1 – Sou 100% a favor da vida. A vida deve sempre prevalecer. A vida só pode ser posta de lado quando entrar em conflito com outra vida (legítima defesa/estado de necessidade), quando a manutenção dessa vida ofender a dignidade da pessoa de uma forma que a vida cause sofrimento extremo e seja irreversível (excesso em procedimentos de manutenção artificial da vida) ou pena de morte em numa situação de guerra declarada, sempre com direito a defesa e julgamento.

2 – Sou a favor das políticas de saúde pública voltadas para a promoção da saúde da mulher. A favor de que todas as meninas aprendam a importância e a usar métodos contraceptivos, que o Estado forneça esses métodos contraceptivos para as mulheres que quiserem e não puderem pagar. Sou a favor de que todos entendam que aborto não é um método contraceptivo e que evitar é mais simples, seguro e humano do que descartar uma vida, enfim, tudo o que a nossa Constituição já diz que temos direito.

3 – Sou a favor de que toda mulher tenha condições de escolher fazer ou não um aborto de forma livre e independente, que ela conheça os riscos do procedimento (não me digam que se for não tem risco porque até tirar cutícula com alicate envolve riscos, imagina tirar um “bife” dum útero). Sou a favor de que a simples conduta de sugerir ou incentivar uma mulher praticar um aborto tenha uma pena muito alta e seja considerado crime hediondo. Sinto arrepios de imaginar que uma moça pobre seja incentivada a abortar porque é pobre, por exemplo. De onde eu venho isso é genocídio.

4 – Sou a favor de que toda mulher, depois de muito informada, de ter acesso a meios contraceptivos e de forma totalmente livre e independente tenha o direito de escolher se deseja ou não realizar um aborto. E que tenha essa vontade respeitada da mesma forma que se quiser ter 15 filhos mesmo sem ter onde morar.

O meu grande grilo nas discussões que venho acompanhando é ver que tem gente muito boa associando aborto com política pública, controle populacional, etc. Gente, os governos devem promover a vida, sempre. Uma mulher não pode ser julgada por ser pobre e ter muitos filhos pela mesma razão que não pode ser julgada por um ‘golpe da barriga’. Não pode ser julgada por ninguém pelo uso que faz do seu útero. Sinto verdadeiro pânico só de considerar a possibilidade de outra pessoa mandar no meu. É meu. Ele dói e me deixa irritada, mas é meu e só eu mando nele.

ATUALIZAÇÃO 2: Apesar de ser a favor de se dar às mulheres a opção de responsável e livremente optarem pela interrupção de uma gravidez deixei de dizer como eu, Dafne, procederia diante de uma gravidez “indesejada”: todas as nossas escolhas tem consequências. A escolha pelo sexo e pela contracepção deve vir antes, muito antes da escolha ou não pelo aborto. Sou uma pessoa cuidadosa que tem acesso a meios contraceptivos e responsabilidade pra usá-los, etc, etc, aquela coisa toda. Mas se por um acaso, acidente, milagre ou o que seja eu me vir nessa situação, olha… juro que não sei. Se a natureza for teimosa e agir de forma diferente da minha vontade apesar desses hormônios e dispositivos com 99,9999…% de eficácia, sei lá, viu? Ainda prefiro correr o mínimo de risco de decidir sobre esse assunto se for o meu útero que estiver na reta.

  • 1 year ago
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Porque só curto um tipo de música: a bem feita.

E esse espaço é tão shuffle, mas tão shuffle, que nem é para falar só de música. Então não se espantem se aparecer uma receita de bolo aqui.
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